7. ARTES E ESPETCULOS 29.8.12

1. TELEVISO   A ME!
2. CINEMA  UM DOCE TIRANO
3. CINEMA  A OUTRA FRANA
4. LIVROS  A PALETA GLOBALIZADA
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  Z LINGUIA

1. TELEVISO   A ME!
A srie (fdp) ilumina os percalos econmicos e as ambiguidades morais de uma figura onipresente na crnica esportiva, mas pouco conhecida de fato: o juiz de futebol.
MARCELO MARTHE

     Dentro e fora de campo, a vida do juiz de futebol Juarez Gomes da Silva (Eucir de Souza)  uma eterna bola dividida. De antemo, ele j carrega a fama de vilo do espetculo: ao surgir no gramado ao lado dos bandeirinhas, a recepo vem sob a forma de vaias, xingamentos e bombardeio de objetos. Se isso j ocorre antes do apito inicial, a coisa costuma ser ainda mais feia ao final da partida. O protagonista da srie cmica (fdp), que estreia no canal pago HBO neste domingo, dia 26, s 20h30,  o saco de pancadas em que os torcedores vo descontar sua frustrao. Na vida pessoal, a peleja tambm no  fcil. Ao dar uma escapadela com uma prostituta, o juiz pegou uma doena sexualmente transmissvel e acabou repassando-a para sua mulher. Enquanto Juarez se mostra inconsolvel com o pedido de divrcio que resulta da, a ex logo se atira nos braos (e em outras partes do corpo) do advogado que a defende. Mas os lances mais perigosos se do quando as agruras do esporte se mesclam aos problemas domsticos. O juiz de direito que pode conceder ou no a Juarez a guarda com partilhada do filho de 10 anos  diretor do time que disputar uma final de campeonato apitada por ele. A autoridade recorre a uma indireta bem direta para sugerir como retribuir sua cortesia no tribunal: No v me desapontar, diz ao rbitro. Os gastos com o processo de separao empurram-no, enfim, para o rebaixamento. Depois de anos convivendo apenas com aquela espcie de me simblica  qual os torcedores s se referem pela expresso chula sintetizada no nome da srie da produtora nacional Prodigo, a queda no padro de vida obriga Juarez a voltar para a casa de sua me de verdade. Quando ela  convidada a dar um depoimento num programa esportivo sobre a experincia de ser to malfalada, Juarez pede cuidado para no comprometer sua reputao como juiz. Voc  que compromete a minha, devolve a me.
     Com ironia sutil e pitadas de drama pungente, (fdp) examina a figura de um anti-heri onipresente na crnica da nao, mas pouco conhecido de fato. Ainda que o futebol seja to reverenciado, ningum est nem a para o juiz, diz o diretor-geral Adriano Civita. Ao narrar a rotina de Juarez e seus colegas, a srie incorpora histrias folclricas desse mundinho (sem dar nome aos bois, por supuesto). O ator de musicais Saulo Vasconcelos empresta seu physique do rle avantajado  figura do bandeirinha gay que tem caso com um jogador enrustido. Em outra imitao da vida, a bandeirinha Vitria (Fernanda Franceschetto), sempre desimpedida no sexo, posa para uma revista de mulher pelada. Tambm est em foco, contudo, a dureza cotidiana da atividade. Perto de seus pares de outros pases sul-americanos, os juzes brasileiros no ganham mal: no topo da carreira, a mdia de rendimentos  de 8000 reais por ms. Mas isso no deixa de parecer uma migalha para quem tem o poder de definir a sorte de campeonatos milionrios. Como ainda no h regulamentao, os rbitros fazem da profisso um segundo emprego. Esse carter de bico leva a aberraes: no fim de semana passado, um bandeirinha foi suspenso por no marcar um impedimento triplo num gol do Santos sobre o Corinthians  fato que tambm levou  demisso do chefe da comisso de arbitragem da CBF. Eis o destino ingrato (embora s vezes justo) reservado ao juiz: se ele for discreto, estar fadado ao ocaso; se aparecer demais,  porque sua personalidade controversa ou seus deslizes incomodam (veja o quadro abaixo).
     O achado do time de roteiristas comandado por Giuliano Cedroni  pintar um protagonista pressionado no s pelas contingncias da profisso, mas tambm por dramas existenciais. Juarez angustia-se, sobretudo, com um dilema maior: ser ou no ser imparcial. Afinal, ele est fadado a desagradar sempre  mesmo sendo absolutamente honesto. Nelson Rodrigues dizia que a ausncia do juiz ladro provocava um desfalque lrico no futebol. (fdp) atesta que um tantinho de ambiguidade, se  ruim no esporte, vai muito bem na fico. 

OS JUZES EM NMEROS...
180 rbitros e 315 bandeirinhas atuam nos campeonatos oficiais de futebol do pas.
3300 reais por partida  o cach de um juiz em campeonatos como o Brasileiro. Em mdia, contudo, o rendimento mensal no auge da carreira no vai alm dos 8000 reais. 
5200 metros era a distncia percorrida pelo juiz durante uma partida em 1970. Em 2010, a mdia chegou a 10.840 metros  um aumento de 108% em quarenta anos.
88 mulheres fazem parte desse universo.
24 anos  a idade mdia da categoria.

... E NO IMAGINRIO DA NAO
O duro: Faz o estilo eu prendo e arrebento. Muitas vezes, vem do meio militar  caso do carioca Mario Vianna (1902-1989), ex-oficial da polcia do Estado Novo e famoso pela severidade. Agente do DOI-Codi e da Rota paulista nos idos do regime militar, o tambm polmico Dulcdio Wanderley Boschilia (1938-1998) chegou a sacar o revlver para se defender de torcedores em fria. Mas tinha seu lado ternurinha: em campo, no abdicava do laqu nas madeixas douradas.

O efeminado: Grandalho do tipo sensvel, o bandeirinha Srgio Balado (interpretado por Saulo Vasconcelos), de (fdp),  representante de um estrato singular: os gays no ramo da arbitragem. Reproduzindo um clssico dos gramados, o personagem  enrustido. A crnica do futebol, contudo, atesta o estardalhao que essas figuras provocam ao saltitar fora do armrio. Morto devido a complicaes da aids em 1995, aos 41 anos, o juiz Jorge Emiliano dos Santos, o notrio Margarida, movia-se como uma liblula em campo  mas saa no tapa com quem lhe faltasse ao respeito.

O ladro: Ser apontado como vendido  a sina de todo juiz. Mas nem todos, evidentemente, cruzam a linha que separa a chacota folclrica do crime  o que ocorreu com Edilson Pereira de Carvalho, rbitro da Fifa que, aps ser denunciado por VEJA, acabou condenado por fraudar resultados do Campeonato Brasileiro de 2005. O dramaturgo Nelson Rodrigues,  verdade, via a ladroagem como um mal necessrio: nada torna uma partida to tediosa, teorizava ele, quanto uma arbitragem ilibada. S o juiz larpio d ao futebol uma dimenso shakespeariana, afirmou.


2. CINEMA  UM DOCE TIRANO
O Ditador, com o humorista ingls Sacha Baron Cohen, faz ares de stira aos regimes autoritrios do Oriente Mdio  mas no fundo  s mais uma comdia romntica.

     Em um momento de romantismo bizarro da comdia O Ditador (The Dictator, Estados Unidos, 2012), em cartaz desde sexta-feira 24, Aladeen, o tirano vivido pelo comediante ingls Sacha Baron Cohen, apaixona-se pela ecoativista Zoey (Anna Faris) ao v-la disparar improprios politizados  de fascista para baixo  contra um policial de Nova York. O dedo em riste, o rosto colrico, a voz elevada: toda a postura de Zoey lembra a de um ditador ensandecido levantando as massas. A essa crtica  santimnia tpica do militante poltico, somem-se as ofensas e esteretipos raciais com que Aladeen costuma se expressar (cautelosamente evitando, porm, qualquer meno ao islamismo), e pode-se ter a impresso de que esta  uma pedrada na correo poltica,  moda anrquica de Team America, da dupla Trey Parker e Matt Stone. Mas ento, quase no fim do filme, o ditador de Baron Cohen, no que parece ser uma homenagem (ou pardia) a O Grande Ditador de Charles Chaplin, faz um discurso que na aparncia  contra a democracia, mas na verdade ataca mazelas  reais, exageradas ou inventadas  dos Estados Unidos. Nem por isso Baron Cohen faz o gnero Michael Moore ou Slavoj Zizek: no  um humorista verborrgico de esquerda. Sntese impagvel das idiossincrasias mais extremas e estranhas dos autocratas do Oriente Mdio  as ambies atmicas de Ahmadinejad, a vaidade falastrona de Kadafi, as pretenses artsticas de Saddam Hussem , Aladeen, ditador do fitcio pas de Wadya,  no entanto um personagem quase desprovido de sentido poltico.
     Nos dois filmes anteriores do comediante, Borat e Brno, havia s um fio de enredo, que servia de pretexto para que as personas de Baron Cohen  um esquisito reprter do Cazaquisto e um exuberante fashionista da ustria  causassem escndalo em cenas de rua ou entrevistassem celebridades desavisadas. O rosto do ator hoje est muito manjado para que ele possa praticar essas pegadinhas. O Ditador tem roteiro mais fechado, simplrio mas eficiente: em viagem a Nova York para fazer um pronunciamento na ONU, Aladeen cai vtima de um compl de seu tio Tamir (Ben Kingsley) e  substitudo por um ssia idiota e manipulvel. Depois de perder sua barba em uma engraadssima sesso de tortura conduzida por um segurana (John C. Reilly, em papel pequeno mas marcante), Aladeen se v sozinho e irreconhecvel em uma cidade do Ocidente que ele professava odiar. Zoey confunde-o com um dissidente e passa a ajud-lo, a despeito de todas as suas odiosas demonstraes de racismo, misoginia e antissemitismo. O envolvimento improvvel entre a riponga tardia e o ditador extraviado acaba convertendo em comdia romntica o que tinha ares de stira poltica. A dureza cnica das piadas  hilrias at, ou principalmente, quando grosseiras  encobre, afinal, um corao aucarado. Sacha Baron Cohen  um grande comediante, mas bem mais convencional do que se supe.
JERNIMO TEIXEIRA


3. CINEMA  A OUTRA FRANA
Um milionrio tetraplgico e branco e seu cuidador negro vindo do gueto se tornam melhores amigos: por que Intocveis virou um fenmeno em seu pas de origem.
ISABELA BOSCOV

     Embaraoso, disse David Denby na The New Yorker. Piegas, calculista e comercial, afirmou a Hollywood Reporter. Condescendente, opinou o decano Roger Ebert, o menos agressivo da turma  que cerrou fileiras em torno de uma mesma questo: os esteretipos raciais redutivos. Quem entretanto se fiar na crtica americana no que diz respeito a Intocveis (Intouchables, Frana, 2011), em cartaz a partir desta sexta-feira no pas, perde a oportunidade de tirar suas prprias concluses sobre os motivos que levaram esse filme a se tornar a segunda maior bilheteria da histria do cinema francs.
     No ano passado, esse misto de comdia e drama dos diretores Olivier Nakache e ric Toledano vendeu perto de 20 milhes de ingressos no territrio domstico. Arredondando,  como se um em cada trs dos 65 milhes de cidados tivesse ido v-lo no cinema. O filme engendrou discusses interminveis na imprensa e entrou no meio do debate eleitoral. A despeito da comoo, Intocveis no se pretende uma pea de agitprop. Feliz e confortvel no seu uso dos lugares-comuns, o filme conta como Philippe (Franois Cluzet), milionrio e colecionador de arte, e seu cuidador, um jovem senegals que acabou de cumprir uma breve temporada na priso por furto, viram improvveis melhores amigos. Philippe, tetraplgico em razo de um acidente, contrata o rapaz, Driss (Omar Sy), porque acha estimulante a falta de modos que ele demonstra na entrevista de emprego. Driss nem tem inteno de ser contratado; quer apenas que assinem
um atestado para ele ter direito ao auxlio estatal  e ainda afana um ovo Faberg da manso de Philippe.  compressvel que tal descaramento apele a algum que nunca inspirou piedade mas agora a recebe em doses sufocantes; e Intocveis, previsivelmente, se baseia em uma histria real (narrada no livro O Segundo Suspiro, lanado aqui pela Intrnseca).
      previsvel tambm que, no decorrer da convivncia, Philippe readquira algo de seu senso de humor e perca um tanto de sua autopiedade, e que Driss saia de sua ignorncia renitente e em boa medida voluntria. A descrio soa cnica porque, primeiro, no leva em conta o trabalho magistral dos dois atores  a delicadeza e a preciso de Franois Cluzet e o calor que Ornar Sy gera em cena. Sy, como seu personagem, vem das banlieues, as periferias racialmente apartadas das grandes cidades. Era j um comediante de sucesso na TV, e com Intocveis tornou-se o primeiro negro a ganhar o Csar, o Oscar francs. Mas, at algum tempo atrs, quando tinha de procurar apartamento, era sua mulher, branca, quem o fazia, para que os corretores no viessem com a desculpa de sinto, mas j est alugado.
     E essa, enfim,  a outra razo pela qual Intocveis mobilizou de tal forma a plateia. Resguardados em suas trincheiras politicamente corretas, so poucos os crticos americanos que fazem ideia realista da tenso racial que marca hoje as sociedades europeias e da quase absoluta falta de comunicao entre o universo dos cidados brancos e o dos descendentes de imigrantes oriundos das ex-colnias. Enquanto nos Estados Unidos o trato prev que o recm-chegado respeite os princpios e as leis, na Europa isso no basta: enfrenta-se uma angstia profunda com a possibilidade de diluio, desfigurao ou mesmo destruio da matriz cultural (e, sim, no adianta ser hipcrita, tnica tambm) original. Os imigrantes relutam ou no tm como se integrar a sociedades to codificadas, e os europeus no facilitam a tarefa. O resultado  um clima que muitas vezes culmina em confronto aberto. Nas banlieues, as estatsticas negativas  de escolaridade, desemprego, crime  superam em muito as mdias nacionais. Sete anos atrs, as periferias francesas explodiram em levantes violentos que levaram  decretao do estado de emergncia no pas (o fenmeno voltou a se repetir, em menor escala, h duas semanas), num sintoma irrefutvel do ressentimento com que diferentes esferas da vida francesa se encaram. A mensagem de intocveis, de que a vitalidade dessa populao alijada pode ser um elemento de reao  estagnao econmica e cultural, e de que a velha Frana, por sua vez, teria muito a ensinar a essas populaes,  simplista, no h dvida. Mas, para a conflagrada sociedade francesa,  uma mensagem otimista. E nem to incua assim: como observou a colunista Daphne Denis na Slate, no obstante a simpatia de Intocveis, o diagnstico que o filme faz  brutal. A Frana branca est paralisada, diz ela, e a Frana imigrante se tornou seus braos e pernas.


4. LIVROS  A PALETA GLOBALIZADA
Num livro fascinante, as telas do holands Vermeer so as janelas que iluminam um fenmeno que mudou a histria no sculo XVII: a primeira onda de comrcio internacional.
MARCELO MARTHE

     Ao morrer, em 1675, o holands Johannes Vermeer estava falido. Num pedido de ajuda aos governantes de Delft, cidade onde o pintor nasceu e passou toda a vida, sua mulher culpava os ventos ruinosos da economia pela derrocada financeira que teria levado Vermeer a uma depresso galopante e acelerado o fim de sua existncia, aos 43 anos. Segundo Catharina, o marido no conseguia mais vender nem um quadro sequer. De repente, viu-se em tamanha runa e decadncia que, como se casse num frenesi, num dia e meio passou da sade  morte. Para infortnio de Vermeer, o mercado de arte j se mostrava um excelente termmetro dos humores de cada tempo. Ao longo do sculo XVII, a Holanda foi um dos dois motores de um fenmeno que transformaria para sempre a natureza das relaes internacionais: a primeira onda da chamada globalizao. O outro motor daquela era de florescimento extraordinrio das trocas comerciais e culturais era um imprio do outro lado do planeta  a China. S na dcada de 1650, 40.000 homens partiram dos portos holandeses rumo ao Oriente, em busca dos produtos cobiados que se fabricavam por l. Mas, pouco antes da morte de Vermeer, a derrota em uma guerra contra a Frana encerrou os dias da Holanda como fora dominante no comrcio mundial. O pintor era o avesso dos aventureiros de ento: levava uma vidinha pacata de membro de uma liga de artistas locais e focava sua obra na rotina domstica do lar que dividia com a mulher, uma carrada de filhos e a sogra. Consta que jamais retratou algum que vivesse a mais de 25 quilmetros de Delft. Mas, assim como virtualmente todos os habitantes de algum dos elos da cadeia do comrcio martimo, no estava imune a seus efeitos. No se est falando s da penria a que ele foi lanado naquela que talvez tenha sido a primeira crise global. Em o chapu de Vermeer (traduo de Maria Beatriz de Medina: Record: 278 pginas; 47,90 reais), o canadense Timothy Brook demonstra como um olhar atento s telas do artista  capaz de abrir janelas fascinantes que revelam o impacto profundo e o alcance duradouro das mudanas que estavam em curso no mundo  como se v nos quadros que ilustram as prximas pginas.
     Em que pese o fato de a especialidade acadmica de Brook ser a China, o lugar central ocupado pelo pas na tese desenvolvida no livro faz todo o sentido  e em certa medida  til para a compreenso da irresistvel emergncia chinesa na atualidade. Se o sculo XVI foi marcado pelas grandes descobertas, o seguinte testemunhou a consequncia maior delas: o estabelecimento de um poderoso cinturo de comrcio que ia da Europa  sia. O sonho de chegar  China  o fio imaginrio que percorre a histria da luta da Europa para fugir do isolamento, diz Brook. Isso determinou mudanas de comportamento e valores: Mais gente aprendia novas lnguas e se ajustava a costumes desconhecidos. O estmulo a esse movimento era o desejo irreprimvel dos ocidentais de consumir as riquezas produzidas no Oriente. A princpio refratrios ao comrcio com o exterior, os governantes chineses acabaram dando o brao a torcer. O comrcio significava a injeo de riqueza na economia local (em especial, sob a forma de toneladas de prata). Alm disso, seria uma impossibilidade prtica proibir os chineses de abraar certos prazeres vindos de fora como o cigarro.
     Sob vrios aspectos, a China e a Holanda do sculo XVII eram a traduo de um mesmo esprito de liberdade comercial (seu reverso estava na colonizao espanhola, com sua tendncia pronunciada de buscar a apropriao da riqueza de outros povos pela fora). Mas deveu-se s  Holanda a inveno da pioneira engrenagem econmica transnacional. A Companhia das ndias Orientais  a primeira grande companhia por aes no mundo, criada em 1602  foi a me das multinacionais contemporneas. Beneficiando-se dos baixos impostos e da flexibilidade administrativa, ela tornou-se a grande potncia empresarial do sculo XVII. Como atesta Vista de Delft, um dos trabalhos de Vermeer analisados por Brook, o pas tirou proveito de uma contingncia ambiental para montar tal estrutura. O resfriamento do planeta ocorrido por um sculo e meio a partir de 1550, naquilo que ficaria conhecido como a Pequena Idade do Gelo, fez com que os cardumes de um peixe valioso na alimentao europeia, o arenque, se mudassem das guas do norte para a costa holandesa. Na tela, os barcos usados em sua pesca dividem espao na paisagem com o imenso pavilho da companhia.
A Holanda de Vermeer foi abenoada pela exploso do comrcio. Em 1631, quando estava em exlio no pas, o filsofo francs Ren Descartes classificou Amsterd, a principal cidade da regio, como um inventrio do possvel. Em que outro lugar da Terra seria possvel encontrar to facilmente todas as curiosidades que se possam desejar?, questionou. Tais maravilhas chegavam tambm aos lares de Delft. Em Leitora  Janela, pintado por Vermeer em 1657, a cama da personagem que examina uma carta est recoberta por um manto turco. Mais emblemtica, contudo,  a presena de um prato chins de porcelana sobre a manta. De qualidade muito superior  loua produzida na Europa, o artefato a princpio era item de luxo, mas logo seu consumo se disseminou entre a nova burguesia em ascenso. Antecipando prticas bem conhecidas das empresas de hoje, os fabricantes chineses tiveram de mudar o design das peas  criando, por exemplo, o prato de sopa tal e qual  conhecido atualmente  para agradar  clientela estrangeira. Na Holanda, no demorou a surgir uma forma embrionria das polticas modernas de substituio de importaes. Depois de serem arrasados pela concorrncia oriental, os fabricantes aprenderam a fazer falsos pratos chineses que at enganavam os leigos. Curiosamente, as imitaes exibiam motivos que refletiam a viso que os europeus tinham da China, ainda que fossem impensveis no pas de origem  como o flagrante de ancies dando baforadas em cigarros, tema que s apareceria na arte chinesa um sculo depois.
     A influncia oriental no est s nos objetos pintados por Vermeer. Ele pertenceu  primeira gerao de artistas holandeses que tiveram contato com a pintura chinesa. Do uso do fundo creme ao enquadramento em primeiro plano, os emprstimos que tomou dela so evidentes. Mas sua pintura trai tambm o contato com outra regio bafejada pelo primeiro ciclo mundial de comrcio: a Amrica. Em Oficial e Moa Sorridente, o chapu do figuro que corteja a donzela era a ltima moda na Europa. Sua matria-prima, a pele de castor, rumava do Canad  Holanda por meio de uma complexa teia de trocas que inclua a venda de armas aos indgenas americanos e financiava expedies em busca de um novo (e inexistente) caminho para a China  sempre a China. Tal histria  uma amostra da narrativa envolvente de O Chapu de Vermeer. A partir de cinco quadros do artista e outras trs obras produzidas em Delft no perodo, o autor vai encadeando anedotas que a certa altura parecem no guardar relao com as pinturas em si  at que se interligam num panorama revelador. No embalo desses crculos virtuosos, o leitor d a volta ao mundo globalizado original.

VISTA DE DELFT (1660-61)
Na nica paisagem ao ar livre que pintou, Vermeer flagra o smbolo que fez da Holanda o epicentro do comrcio global de seu tempo. O prdio cujo telhado domina o lado esquerdo da panormica do Porto de Delft era a sede local da Companhia das ndias Orientais. Combinando o peso econmico proporcionado por suas dimenses com a agilidade de uma administrao descentralizada, a me das empresas multinacionais de hoje liderava as trocas de mercadorias entre a sia e a Europa no sculo XVII.
Os dois barcos em reparo ilustram a influncia do meio ambiente sobre os ventos da economia. Tais embarcaes eram utilizadas na pesca do arenque, peixe que era uma das bases da alimentao europeia. O arenque foi abundante no litoral da Noruega  mas, em razo da queda das temperaturas mundiais por vrias dcadas, seus cardumes moveram-se mais para o sul,  altura do litoral da Holanda. O controle do recurso natural contribuiu para a criao da riqueza que alaria o pas  vanguarda do comrcio internacional.

MULHER COM BALANA (1664)
 primeira vista, o quadro alude  virtude do discernimento moral. A moa que segura a balana tem o semblante sereno de uma madona e exibe uma silhueta que sugere uma gravidez (a modelo mais provvel  a mulher de Vermeer). Atrs dela, a pintura do Juzo Final corrobora o vis alegrico. Mas a cena pode ser vista tambm como uma celebrao do ento nascente capitalismo: a mulher est fazendo as vezes de contadora de suas posses, pesando moedas. Da Holanda  China, sua atitude seria imediatamente compreendida: as moedas daqueles tempos quase nunca eram avaliadas por um valor de face, mas sim pelo peso. Acima de tudo, pontificava a prata: vindo do Japo e das minas de Potos, na atual Bolvia, o metal tornou-se um padro universal para o comrcio.

OFICIAL E MOA SORRIDENTE (1658)
A sugesto romntica da cena  bvia: o rapaz vale-se da boa conversa para flertar com uma moa de famlia (possivelmente, a modelo era de novo a mulher de Vermeer, Catharina). O chapu atesta a posio social dele. Enquanto os holandeses mais pobres usavam modelos de l de ovelha, as figuras distintas podiam exibir-se com chapus de couro de castor. Sinal inequvoco da globalizao: a cobiada pele do animal era obtida no comrcio com os ndios da Amrica do Norte, em troca de armas de fogo.
A presena de globos terrestres e mapas nas telas de Vermeer no  fortuita. No tempo do artista, novos lugares e rotas de comrcio eram descobertos a cada dia, o que aguava o interesse por essas representaes de um mundo em constante transfigurao.


5. VEJA RECOMENDA
DVD
ALICE NAS CIDADES (ALEMANHA, 1974. VINNY FILMES)
 Em crise pessoal e financeira depois de uma viagem pelo interior dos Estados Unidos, o jornalista alemo Philip Winter (Rdigler Vogler) tenta voltar para seu pas natal. Tudo o que consegue  uma passagem para Amsterd, na Holanda, e um inesperado excesso de bagagem: uma garotinha de 9 anos (Yella Rottlndder), deixada sob seus cuidados pela me, que desaparece antes do embarque. Alice nas Cidades, o primeiro ttulo da chamada trilogia da estrada, do diretor alemo Wim Wenders  os outros so Movimento em Falso e No Decurso do Tempo , mostra a improvvel amizade entre duas pessoas que tm em comum apenas o fato de estar  deriva. Tendo como referncia apenas uma fotografia da casa da av da menina  que pode ficar em qualquer cidade alem , a dupla segue se estranhando e se envolvendo em um percurso que a leva por restaurantes de beira de estrada e hotis baratos. A fotografia, em granulado preto e branco,  mais eloquente que os dilogos escassos. H um certo charme vagabundo nessa aventura de humor sutilssimo, que pode ser resumida nas palavras da me de Alice, no incio do filme: Viver  difcil. Ningum nunca me ensinou.

DISCOS
THE MOTHERSHIP RETURNS, RETURN TO FOREVER (ST2)
 O Return to Forever foi um dos expoentes do jazz rock dos anos 70. Liderado pela dupla Chick Corea (piano e teclados) e Stanley Clarke (baixo), o grupo teve diversas formaes at encerrar suas atividades, em 1979. Em 2008, Corea, Clarke, o baterista Lenny White e o guitarrista Al Di Meola ressuscitaram o grupo para uma turn, que resultou num timo disco ao vivo. Di Meola acabou substitudo por Frank Gambale, e o violinista Jean-Luc Ponty somou-se  turma.  essa formao que toca em Mothership Returns, registro dos melhores shows da turn de 2011. O quinteto brilha na recriao de temas gravados anteriormente, como Medieval Overture e Romantic Warrior. E o show inclui grandes atuaes individuais. Corea faz uma colagem de Spain, tema de sua autoria, com o Concerto de Aranjue, de Joaqun Rodrigo. Ponty revisita Renaissance, faixa de seu disco Aurora, de 1975. E Clarke, como no poderia deixar de ser, presenteia a plateia com School Days, um dos temas preferidos por baixistas no mundo inteiro. O CD duplo vem acompanhado de um DVD com os melhores momentos do show.

PRXIMA ESTAO, VOLVER (TRAMA VIRTUAL)
 O guitarrista e cantor pernambucano Bruno Souto assistiu a pelo menos oito apresentaes de Chico Science & Nao Zumbi. Mas, na hora de montar seu grupo, optou por seguir outra escola. O Volver no tem nenhum elemento em comum com o manguebit, gnero difundido por Chico Science e por bandas como mundo livre s/a. Tampouco utiliza instrumentos tpicos do maracatu ou da ciranda. Esse distanciamento das tradies pernambucanas est explcito na letra de Mangue Beatle, que afirma: Essa lama nos teus dedos / No traduz o meu desejo, em vo / Meu vcio  bem maior / Na minha solido. Prxima Estao  o terceiro disco do Volver, cuja sonoridade est prxima  do power pop dos anos 60 e 70.  um lbum que apresenta guitarras muito bem gravadas e um repertrio que varia de rocks a baladas acima do nvel atual do pop e do rock brasileiros  como se pode perceber em Simplesmente, a melhor cano do lbum. O humor  outra qualidade no trabalho da banda. Ele se faz presente sobretudo em Mallu, especulao meio debochada sobre a chegada da cantora Mallu Magalhes  idade adulta. O disco pode ser baixado gratuitamente no site http://albumvirtual.trama.uol.com.br.

LIVROS
AS PONTES DE KNIGSBERG, DE DAVID TOSCANA (TRADUO DE MICHELLE SWTRZODA; CASA DA PALAVRA; 256 PGINAS; 39,90 REAIS)
 David Toscana, 51 anos, tem se dedicado a um universo conhecido na literatura mexicana: o interior desolado, meio fantasmagrico, que j se encontrava na obra de Juan Rulfo. Mas Toscana v as velhas paisagens a partir de perspectivas novas. Em O ltimo Leitor o protagonista  o bibliotecrio de uma cidadezinha na qual ningum mais l. Em Santa Maria do Circo, uma trupe de artistas mambembes toma posse de um vilarejo abandonado do deserto. Neste novo romance, a ao transcorre no s no Mxico, mas tambm na Europa conflagrada pela II Guerra Mundial. O ttulo faz referncia a um antigo enigma matemtico relacionado  geografia da cidade prussiana de Knigsberg (hoje Kaliningrado, pertencente  Rssia), resolvido no sculo XVIII pelo suo Leonhard Euler. O enigma e o drama da cidade s vsperas de ser tomada pelo Exrcito Vermelho se enlaam com o misterioso desaparecimento de seis meninas mexicanas em Monterrey. A justaposio de narrativas e cenrios revela um escritor em pleno domnio do ofcio.

NOITES AZUIS, DE JOAN DIDION (TRADUO DE CELINA PORTOCARRERO; NOVA FRONTEIRA; 144 PGINAS; 29,90 REAIS)
 Em O Ano do Pensamento Mgico, de 2005, escritora americana Joan Didion tratou da morte de seu marido, o tambm escritor John Gregory Dunne, fulminado por um ataque cardaco no fim de 2003.  um livro duro, desencantado, um ensaio sobre o luto escrito por uma autora que estava no meio desse doloroso processo. Noites Azuis complementa essa inquirio sobre a dor, tratando agora de Quintana, filha adotiva de Joan e Dunne, que, vtima de uma longa sequncia de complicaes (pneumonia, septicemia, hemorragia cerebral), morreu em 2005, pouco depois que a escritora concluiu O Ano do Pensamento Mgico. Este talvez seja um livro ainda mais pungente. Joan trata no s da doena terminal da filha, mas tambm de seus altos e baixos, suas imprevisveis mudanas, que comearam na infncia e sinalizavam desequilbrios psicolgicos. Joan expressa, sobretudo, o asfixiante sentimento de dvida que tem em relao  filha  um sentimento sem consolo, que quase todos experimentam ao perder algum querido.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
2. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
3. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
4. Herana  Christopher Paolini. ROCCO
5. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
6. O Casamento  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
7. Jogos Vorazes  Suzanne Collins. ROCCO
8. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
9. Manuscrito Encontrado em Accra  Paulo Coelho. SEXTANTE 
10.  Assassins Creed  A Cruzada Secreta  Oliver Bowden. GALERA RECORD 

NO FICO
1. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS
2. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL 
3. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
4. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
5. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO
6. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO 
7. One Direction  Danny White. BEST SELLER
8. One Direction  lbum Oficial  Sarah Delmege. PRUMO
9. Rpido e Devagar  Daniel Kahneman. OBJETIVA 
10. O Livro da Filosofia  Vrios. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
2. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE
3. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
4. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
5. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
6. A Menina do Vale  Bel Pesce. CASA DA PALAVRA 
7. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
8. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
9. A Arte da Guerra. Sun Tzu. VRIAS EDITORAS 
10. Os Segredos da Mente Milionria  T. Harv Eker. SEXTANTE


7. J.R. GUZZO  Z LINGUIA
     Pode at no ser uma verdade comprovada pela histria, mas ningum discute que se trata de uma belssima ideia. Na Roma antiga, quando um grande general voltava de uma campanha vitoriosa no estrangeiro, fazia-se uma fabulosa procisso triunfal pelas ruas da cidade, o triunfo, para exibir diante do mundo a glria do comandante vencedor, e homenagear a grandeza que ele trazia  ptria. Era a honra mxima que um cidado romano podia obter, e dava um trabalho danado chegar l. Ele tinha de ter matado em combate pelo menos 5000 soldados inimigos. Tinha de mostrar, presos, os chefes derrotados. Tinha de ter enfrentado um exrcito pelo menos equivalente ao seu. Tinha, sobretudo, de trazer sua tropa de volta para casa. O problema, nisso tudo,  que os romanos da Antiguidade eram gente que tinha em altssima conta a modstia pessoal  e, em consequncia, fechava a cara para qualquer demonstrao de soberba. O que fazer, ento, na hora em que o general vitorioso desfilava perante a multido como se fosse um rei?  a que aparece a ideia mencionada acima. Logo atrs do triunfador, no mesmo carro puxado por quatro cavalos que ele conduzia, ficava um escravo que, de tanto em tanto tempo, lhe dizia baixinho ao ouvido: Memento mori. Ou: Lembre-se de que voc vai morrer um dia. Nada melhor, provavelmente, para baixar o facho de qualquer alta autoridade que comea a se achar.
     Esse procedimento poderia ser o tipo da coisa til no governo brasileiro de hoje. Seria uma beleza, por exemplo, se o chanceler Antonio Patriota, ao destilar pelo planeta com a sua bela pasta de couro, distribuindo em nome da presidente Dilma Rousseff as advertncias do Brasil para os grandes, mdios e pequenos deste mundo, tivesse algum recurso parecido  naturalmente, com as adaptaes necessrias s nossas realidades atuais. Um oficial de chancelaria, digamos, andaria sempre atrs dele; s que, em vez do severo aviso romano, ficaria repetindo ao seu ouvido: Lembre-se do Z Linguia. Deveria ser o suficiente para o dr. Patriota cair bem depressa na real. Ele se lembraria imediatamente de que vem do pas do Z Linguia  e ningum, nem a presidente Dilma, consegue transformar em potncia mundial um pas que chega a ter no centro do maior espetculo jurdico da sua histria, mesmo por um momento fugaz, um cidado chamado Z Linguia. Quem acompanha o julgamento do mensalo pode estar lembrado desse Z Linguia  o elo perdido entre um dos rus e a mala preta do professor Delbio Soares, o tesoureiro do PT. Mas falar dele justo nesta hora, na suprema corte da nossa terra, em seus dias de solenidade mxima? Bem no momento em que cada ministro quer ser, no mnimo, um Ccero, e outros so capazes de escrever mais de 1000 pginas para dizer se um cidado  culpado ou inocente? Pois   a vem o Z Linguia, e com um personagem desses no h pose que resista. Some, na hora, o Brasil Grande. Aparece o Brasil de verdade.
     Falou-se do ministro Patriota, mas o aviso ao p do ouvido vale para qualquer gro-duque do poder pblico brasileiro, e para a prpria presidente da Repblica, quando comeam a imaginar que so o rei Lus XV de Frana. Quanto  mensagem dos lembretes, ento, h uma infinidade de coisas a dizer alm do Z Linguia. A voz poderia lhes recordar, por exemplo: Todo ano h 50.000 homicdios no Brasil. Em trs anos, com 150.000 cadveres,  o equivalente a uma bomba de Hiroshima. Ou: O ensino mdio brasileiro, pelos dados oficiais de 2011, tem nota 3,7, numa escala que vai de zero a 10. Seria possvel lembrar que as dez entradas de So Paulo, a cidade mais rica e possante do Brasil, formam uma das mais pavorosas sucesses de favelas de todo o mundo; nosso desenvolvimento, em qualquer lugar do pas, tem o dom de atrair misria. Tambm seria til que nossas autoridades, em seus acessos de grandeza, lembrassem que a populao brasileira est proibida de frequentar reas inteiras das grandes cidades, tomadas por bandidos, vadios e predadores diversos, como se vivesse sob o toque de recolher imposto por um exrcito de ocupao. Como essa gente que est no governo pode dormir em paz num pas assim?
     Esse pesadelo no foi criado pelo governo da presidente Dilma, nem ser resolvido por ela. Mas ento, como o rei da Espanha recomendou tempos atrs ao coronel Hugo Chvez, por que no se calam? Por que se metem na vida do Paraguai ou do palpites na economia da Europa? Por uma questo de decncia comum, e em nome do senso de ridculo, todos deveriam fazer, j, um voto de silncio.

